Minha meia, e a outra?

Estava um frio de rachar as unhas naquela tarde chuvosa qualquer de agosto de 2018 em Santa Catarina quando, subitamente, meu cão começou a latir estranhamente, como querendo me dizer alguma coisa. Desci as escadas e fui ao pátio de casa e lá estava ele andando ao redor de um pé de meia velho, destes que eu uso para acalentar meus amigos bípedes, parças inseparáveis das mais loucas andanças pelas ruas da vida.

Abaixei-me então e peguei a combalida felpuda para olhar mais de perto. Nesse ínterim, num vislumbre de 180° do varal ao chão, avistei sua irmã, que se encontrava no outro extremo do quintal como se, arremessada fortemente por uma lufada de vento, quase suplicasse ajuda.

Ao pegá-la também, observei cuidadosamente os detalhes e adornos tecidos à mão cirurgicamente; um desenho estilizado do sol em espiral 3D com nuances degradê alaranjadas bem legais.

O mais intrigante é jamais ter percebido isso durante todo o tempo, entre idas e vindas do tanque, passando literalmente pelo calor do ferro de passar até estacionar na gaveta do guarda-roupas.

Depois desse momento de contemplação do par de algodão, afaguei meu amigão peludo (tenho três, dois caras e uma mina), levei as meias para dentro de casa e calcei-as.

Não saímos naquele dia, mas, por um instante, e dali pra frente, aprendi com a “meia” mais uma lição. Identificar a beleza das coisas e da vida onde, mesmo a princípio, pareça improvável encontrar.