
Um dia desses eu pedirei a Deus que, antes da despedida terrena, me conceda, uma vez mais, a oportunidade de desfrutar dos prazeres da noite, das madrugadas sem fim, do aconchego gostoso das confidentes e que não faltem a birita e o violão para alegrar os ouvidos, sempre carentes de uma boa conversa.
E assim seguimos, porque a noite ainda nem começou. Afinal de contas, o Rio de Janeiro continua lindo, com seus encantos mil.
Este é o retrato pintado em aquarela, em prosa e verso, descrevendo um passeio pelo bairro mais boêmio e acalentado da cidade, minha saudosa Lapa.
Eternizada em belas canções regadas sempre com muita alegria e a retórica característica das tribos que circulam entre os caminhos que levam a recantos mágicos e charmosos.
Os arcos, com sua arquitetura suntuosa, são um dos cartões postais do Rio 40 graus. Uma história diferente escrita a cada noite, em que a energia contagiante que emana de todos os lugares, quase uma súplica, nos convida a permanecer por lá.
Impossível não mencionar o Circo Voador, reduto da rockeiragem, inaugurado na década de 80, onde a virtuose das grandes bandas que ali desfilaram seus clássicos transformou o cenário e colocou a audiência num transe apoteótico. Um lugar fantástico com seus eventos únicos e eternos.
Um público diferenciado é o que se nota quando circulamos entre as mesas das biroscas, bares, pubs e botecos, passando pela sofisticação dos bares badalados, onde podemos encontrar desde intelectuais e artistas a anônimos, que dão o tom eclético à atmosfera reluzente e vibrante deste lugar.

É claro que não podemos esquecer o samba, sinônimo de boemia e tradição, um ritmo contagiante e eterno. Onde quer que estejamos, há alguém empunhando um cavaco ou pandeiro e, basta um som começar para a galera fazer a roda e a temperatura se elevar, sambando até cansar.
E haja cerveja, caipira e tira-gosto. Este é o clima ideal para curtir esse lugar efervescente e sedutor.
É difícil aproveitar todos os pontos pitorescos, becos e points numa única noite; é necessário fazer várias incursões ao local, onde é possível descobrir algo novo, mesmo já tendo visitado os mesmos lugares. Um déjà vu envolto numa neblina insólita.
A socialização é algo surreal, os assuntos variadíssimos e extremamente inusitados aguçam nossa percepção e ampliam nossa visão cosmopolita e comportamental. Um lugar que inspirou muitas histórias e compilou muitas composições memoráveis.
Entre uma conversa e outra, percebemos uma despreocupação quase infantil, em que, por alguns instantes, o tempo parasse e cada mesa fosse um ecossistema diferente, embora compartilhassem a mesma essência e graça carismática que o ambiente proporciona.
Quero crer que minha companhia, elegante e recatada, da qual desfruto imensurável prazer, confabulando por horas durante esta noite agradável de lua nova, possa me sentenciar, junto a ela, a esquecer do tempo e estender nossa permanência aqui ou acolá, como se não houvesse amanhã, entregando-se ao mais puro êxtase libertino.
Certamente, amanhã é outra noite, misteriosa e inconsequente, em que o intervalo do dia serve para refletirmos e rejuvenescer a alma, pois, como um bom e típico flâneur, a vida deve ser vivida intensamente com os deuses da noite como testemunhas e a boemia como enigmática anfitriã das paixões e aventuras.
Valeu, Matheus de Souza, pela provocação do desafio 21 dias de escrita!!!
#DesafioDoMatheus #escritacriativa
